A promulgação da Emenda Constitucional 132/2023 e a regulamentação pela Lei Complementar nº 214/2025 inauguram um novo cenário para o varejo brasileiro e colocam a Estratégia de Preço no centro da tomada de decisão.
Em um setor historicamente marcado por margens estreitas e alta sensibilidade à demanda, a mudança no modelo tributário, agora baseado em um sistema de IVA dual, não altera apenas a carga fiscal. Ela redefine como o preço deve ser construído, gerido e ajustado no ponto de venda.
Mais do que um ajuste técnico, trata-se de uma mudança estrutural.
Do markup à estratégia: o fim da precificação previsível
Durante décadas, o varejo operou com uma lógica relativamente estável de formação de preços: custo de aquisição, despesas operacionais, markup e margem desejada. A tributação, embora relevante, estava incorporada ao modelo de forma previsível.
Com a reforma, essa previsibilidade se rompe. A lógica de créditos ao longo da cadeia passa a impactar diretamente a margem final. Erros na classificação fiscal ou na leitura da cadeia de créditos deixam de ser apenas falhas operacionais, tornam-se riscos diretos à competitividade.
Preço, agora, não é apenas resultado de custo. É resultado de interpretação tributária correta.
O novo risco: o erro nasce no PDV
Se antes o risco tributário estava concentrado na apuração ao fim do período, agora ele se desloca para a origem:
- Parametrização de sistemas
- Classificação de produtos
- Definição de alíquotas
- Aplicação de créditos
Um erro no cadastro de um item pode gerar:
- Tributação maior que a devida
- Aumento artificial de preço
- Redução de giro
- Perda de competitividade
Esse novo cenário inaugura o conceito de risco tributário no PDV, um risco silencioso, recorrente e potencialmente escalável.
O dilema estrutural: repassar ou absorver?
A promessa de neutralidade da reforma não se materializa de forma homogênea entre setores e categorias. No varejo, isso se traduz em um dilema clássico:
- Repassar custos → risco de queda de volume
- Absorver custos → compressão de margem
Em um ambiente de consumo pressionado e alta elasticidade de preços, a capacidade de repasse é limitada. Isso exige uma mudança de lógica: não se trata mais de precificar produtos isoladamente, mas de gerir margem no nível do portfólio.
Estratégia de preço exige visão de portfólio
A nova realidade impõe uma abordagem mais sofisticada de precificação. Cada produto passa a ter um papel estratégico diferente dentro do mix:
- Produtos de tráfego (alta elasticidade)
- Produtos de margem (menor sensibilidade a preço)
- Itens táticos para posicionamento competitivo
- Categorias com maior impacto tributário
A pergunta deixa de ser “qual o preço ideal deste produto?” e passa a ser: Como este produto contribui para a margem total do negócio? Essa mudança é central para sustentar rentabilidade sem comprometer volume.
Promoções, descontos e o efeito invisível na margem
Outro impacto relevante está nas políticas comerciais. Práticas comuns no varejo, como descontos, promoções, bonificações e programas de fidelidade, passam a ter implicações tributárias mais complexas.
Descontos, por exemplo, podem alterar a base de cálculo de tributos, impactando diretamente a margem líquida. Ou seja: uma ação promocional aparentemente vantajosa pode, na prática, destruir valor sem que isso seja imediatamente visível.
Integração: o novo requisito competitivo
A complexidade do novo sistema exige uma mudança organizacional. Áreas que tradicionalmente operavam de forma independente precisam atuar de forma integrada: fiscal, financeiro e comercial. Além disso, tecnologia e governança tornam-se ativos estratégicos:
- ERPs atualizados e parametrizados corretamente
- Automação de regras tributárias
- Auditorias recorrentes
- Monitoramento contínuo de margem por produto
Sem essa base, a estratégia de preço se fragiliza.
Perguntas estratégicas para lideranças do varejo
Diante desse novo cenário, algumas perguntas tornam-se inevitáveis:
- Nossa precificação considera corretamente os impactos tributários por produto?
- Sabemos quais itens geram margem real — e quais apenas volume?
- Estamos tomando decisões promocionais com base em margem líquida ou bruta?
- Nossos sistemas estão preparados para refletir a complexidade do novo modelo?
Preço, agora, é uma equação multidimensional.
Conclusão: o preço deixou de ser um número
A Reforma Tributária não apenas altera a carga fiscal do varejo. Ela redefine o papel do preço dentro da estratégia do negócio.
Empresas que continuarem tratando precificação como uma função operacional tendem a sofrer compressão de margem e perda de competitividade.
Por outro lado, aquelas que incorporarem a dimensão tributária à sua estratégia de preço terão uma vantagem relevante:
- Maior controle de margem
- Melhor gestão de portfólio
- Decisões comerciais mais inteligentes
Em um cenário de alta sensibilidade ao consumo, o preço deixa de ser apenas um número e passa a ser uma das principais alavancas estratégicas do varejo.




