O mercado global de fusões e aquisições (M&A) em logística segue aquecido, mesmo diante da instabilidade econômica. Em 2024, foram registradas 511 transações, segundo o relatório Transportation & Logistics M&A Pulse (PMCF) — queda de 5% em relação ao ano anterior, mas ainda em patamar elevado. No início de 2025, o ritmo acelerou: o primeiro trimestre já contabilizou 250 operações, alta de 3,3% frente ao trimestre anterior, de acordo com a R.L. Hulett & Company.
No Brasil, a estimativa é de que entre 32 e 48 transações em logística e transporte tenham ocorrido entre janeiro e março de 2025, dentro do padrão histórico de participação do setor (8% a 12%) no total de M&As nacionais. No período, o país registrou 399 operações em diferentes setores, segundo PwC, KPMG e TTR Data.
Casos emblemáticos: de terminais portuários à logística verde
Dois movimentos recentes mostram o dinamismo do setor:
- Santos Brasil e CMA CGM: a francesa adquiriu 48% da operadora portuária por R$ 6,3 bilhões, em um dos maiores negócios já realizados no segmento no país.
- Lenarge e Zero Carbon Logistics: a aquisição de uma referência em transporte sustentável — com frota elétrica e a GNL — deve elevar em 30% o faturamento da Lenarge, alcançando R$ 2 bilhões.
Globalmente, a tendência é similar. A dinamarquesa DSV concluiu a compra da DB Schenker por €14,3 bilhões, enquanto a CEVA Logistics incorporou a divisão logística da turca Borusan por US$ 440 milhões. Na América do Norte, players como Purolator, Ryder e Schneider National também avançaram em aquisições estratégicas. Já FedEx e WiseTech reforçaram frentes tecnológicas, adquirindo empresas de software e inteligência artificial.
Incerteza como oportunidade: ativos mais baratos, mas prêmios seletivos
Para Jefferson Nesello, sócio-fundador da ZAXO, boutique especializada em M&A, a incerteza é um vetor de oportunidades: “É nas turbulências que surgem os melhores negócios. Quando tudo está previsível, os preços ficam inflados. A volatilidade abre espaço para oportunidades.”
Essa percepção é confirmada por estudos de Ronaldo Rodrigues (ZAXO), que analisou mais de 20 mil transações globais. O levantamento mostra que a incerteza reduz, em média, 6,7% o valor dos ativos. No entanto, em empresas com alto potencial de crescimento, esse desconto praticamente desaparece. E em setores competitivos como logística, os compradores chegam a pagar até 19% de prêmio quando enxergam clareza no longo prazo.
O Brasil como polo logtech: entre custos altos e demanda por eficiência
Com custos operacionais que atingem R$ 749 bilhões anuais — o equivalente a 12,7% do PIB, segundo ILOS e CNT —, a logística é um dos segmentos mais pressionados da economia brasileira. Essa pressão gera duas forças simultâneas: consolidação entre grandes players e inovação via startups.
O país já conta com 283 logtechs ativas, de acordo com o Distrito LogTech Report (KPMG, Volvo e VLi), quase metade delas voltadas à gestão logística. Esse ecossistema cresce em meio a um cenário que exige mais rapidez, sustentabilidade e eficiência, como resume Leonardo Grisotto, sócio da ZAXO: “A logística vive um efeito sanduíche. De um lado, custos em alta e regulações mais rígidas. Do outro, clientes exigindo mais rapidez, sustentabilidade e eficiência. Quem não se adapta vira alvo; quem tem capital, compra.”
O que esse movimento ensina sobre estratégia em logística
A leitura estratégica desse cenário aponta três implicações principais para empresas e investidores:
- Volatilidade como vantagem — a incerteza econômica reduz preços médios, mas premia ativos que apresentam clareza estratégica e potencial de crescimento.
- Sustentabilidade e tecnologia como drivers de valor — operações como a da Zero Carbon Logistics mostram que diferenciais ambientais e digitais aumentam atratividade.
- Consolidação inevitável — com margens pressionadas, eficiência só se alcança com escala, integração tecnológica e especialização setorial.
Conclusão: logística é o novo epicentro do M&A estratégico
Os números mostram que o setor logístico é hoje um dos mais atrativos para consolidação global. A combinação entre custos crescentes, pressão regulatória e novas exigências de clientes cria um cenário de “survival of the fittest” — onde empresas inovadoras viram alvo e grupos capitalizados lideram a consolidação.
Para o Brasil, esse movimento é também um alerta: eficiência logística não é mais diferencial — é pré-requisito. As empresas que conseguirem unir escala, tecnologia e sustentabilidade estarão no centro da próxima onda de valor.




