O consumo de carne bovina no Brasil passou, ao longo da última década, por um processo claro de sofisticação — com novos cortes, linguagem importada e maior valorização da experiência. Agora, um movimento semelhante começa a ganhar força em outra categoria historicamente mais “comoditizada”: o frango.
A estratégia da Seara, marca da JBS, ilustra essa transformação. Com receitas anuais na casa de R$ 50 bilhões, a empresa tem investido de forma consistente para reposicionar o frango de um item básico para uma categoria de valor agregado.
O ponto central não está no produto em si. Está na leitura de comportamento: o consumidor mudou e espera mais do que apenas proteína.
A lógica por trás da sofisticação: conveniência, indulgência e saudabilidade
Nos últimos anos, a Seara ampliou significativamente seu portfólio. Hoje são mais de 300 SKUs de aves, com cerca de 25% lançados apenas nos últimos cinco anos.
Esse movimento não é aleatório. Ele responde a três vetores claros de demanda:
- Conveniência, com produtos prontos ou de preparo simplificado
- Indulgência, com foco em sabor e experiência
- Saudabilidade, alinhada à busca por proteínas de maior qualidade
A evolução inclui desde produtos empanados e marinados até soluções pensadas para air fryer e forno, além de linhas orgânicas e novas propostas de embalagem. O que antes era um produto genérico passa a ser um portfólio segmentado, desenhado para diferentes momentos de consumo.
Inovação como alavanca de valor e não apenas de variedade
Um dos movimentos mais relevantes está na aposta em frango resfriado, com tecnologias como ATM (Atmosfera Modificada), que prolonga o frescor e melhora a apresentação do produto. A mudança parece técnica, mas tem implicações estratégicas importantes.
Hoje, o mercado brasileiro ainda é majoritariamente dominado por produtos congelados, que representam cerca de 55% das vendas. O resfriado, apesar de mais caro — entre 10% e 15% acima —, oferece ganhos claros:
- Melhor experiência para o consumidor
- Maior praticidade no preparo
- Eficiência operacional para o varejo
Ao incentivar essa migração, a empresa não apenas aumenta ticket médio, mas também requalifica a percepção de valor da categoria.
O papel da experiência na decisão de compra
Pesquisas conduzidas pela própria empresa indicam que fatores como frescor e visibilidade do produto na embalagem influenciam diretamente a escolha do consumidor.
Isso reforça um ponto crítico: a decisão de compra não está mais centrada apenas em preço ou hábito. Elementos como apresentação, praticidade e confiança passaram a ter peso relevante. Nesse contexto, inovação deixa de ser diferencial e passa a ser requisito competitivo.
Expansão além do produto: o modelo de rotisserias
Outro vetor estratégico está na ampliação do consumo fora do preparo doméstico.
A Seara tem investido em um modelo que leva frango assado pronto para rotisserias em supermercados e lojas independentes. A proposta atende diretamente à busca por conveniência, especialmente em grandes centros urbanos. Mas o diferencial está na execução.
A empresa não fornece apenas o produto, mas estrutura o ecossistema:
- Equipamentos desenvolvidos sob medida
- Treinamento operacional
- Padronização da experiência
- Embalagens específicas
Isso garante consistência na entrega e reforça a marca no ponto de consumo.
Crescimento sustentado por leitura de mercado
A estratégia da Seara se traduz em números: crescimento relevante de receita, expansão de portfólio e fortalecimento de marca, com impacto direto em recompra e capacidade de precificação.
Mas o principal aprendizado está na lógica por trás dessas decisões. O crescimento não vem apenas de vender mais do mesmo, mas de:
- Identificar novas ocasiões de consumo
- Reconfigurar o portfólio
- Capturar valor em diferentes níveis de preço
- Antecipar tendências de comportamento
Conclusão: o futuro do crescimento está na sofisticação do consumo
O caso da Seara mostra que mesmo categorias maduras ainda possuem espaço relevante para crescimento desde que sejam reinterpretadas sob a ótica do consumidor. Isso se potencializa com uma eficiente Estratégia de Crescimento e Portfólio.
O frango não mudou. O que mudou foi a expectativa em torno dele. Empresas que conseguem traduzir essa mudança em portfólio, experiência e execução criam uma vantagem difícil de replicar.




